Alfabetizar - um ato de encantamento

Encantamento: Sensação de deslumbramento, admiração, grande prazer que se tem como reação a alguma boa qualidade do que se vê, ouve ou percebe.

Nunca conheci uma escola sem montanhas de livros infantis. Todos são portas para o universo da imaginação. São carregados de fábula, magia, poesia, sonho, alegria, fantasia, terror, suspense e risada.

Como disse José Ramón Gamo, “para aprender, o cérebro precisa se emocionar”. Os livros emocionam.

Os livros despertam curiosidade. Curiosidade em conhecer os mistérios da história, das ilustrações, da página seguinte, do final que está próximo.

Mergulhar no universo dos livros requer conhecer as letras, seus sons e seus agrupamentos.

Como se encantar pela leitura? A resposta é escandalosamente simples: escutando alguém lendo de forma prazerosa.

É possível forçar o encantamento? É possível se encantar por algo quando a professora, com uma voz ríspida e ameaçadora, grita que é hora de fazer silêncio e escutar a história? Claro que não.

O encantamento só acontece por paixão, a voz mansa e cativante de um leitor que, também encantado pela leitura, te prende a atenção através da musicalização do tom de voz e expressão facial.

ESCOLA DO PROJETO ÂNCORA

Fui educadora voluntária no Projeto Âncora por 3 anos. Nos últimos 2 anos eu era responsável por uma oficina de leitura.

Essa oficina foi inspirada em uma matéria que li faz muitos anos. Não me lembro de nenhum dado para fazer a devida referência, só me lembro o que ela revelava: em um país da Europa, crianças estavam recebendo o apoio de cachorros em seu processo de alfabetização.

Lembro-me da foto que ilustrava a matéria. Uma menininha, sentada no chão ao lado de um cachorro cor de mel de grande porte. Ela segurava um livro e lia a historia para o cão.

A matéria descrevia de forma encantadora a postura do cachorro, que não corrigia a criança, não a chamava a atenção quando ela lia errado ou gaguejava para ler uma palavra mais difícil. O cão se mantinha plácido, algumas vezes atento, e outras vezes dormia ao escutar a voz da criança.

Pela ausência de repreensão, a criança ganhava autoconfiança e ficava cada vez mais empolgada em ler para o atento cão, e se o cão dormia, a criança sentia como se tivesse cumprido bem sua tarefa, assim como os pais que leem uma história para seus filhos dormirem.

Na oficina de leitura, eu lia muitos livros, mas meu papel principal era igual ao dos cães. Eu convidava as crianças com dificuldade de leitura para lerem para mim. A maioria das crianças apresentava enorme insegurança e muitas vezes aproximavam o livro de meu rosto, com o dedinho fixo em uma palavra "estranha", e pedia para eu ler. Eu, assim como os cães, não lia, mas sorrindo elogiava tudo que ela havia lido até então e a convidava à ler bem devagarzinho mais aquela palavra, e assim ela voltava a ler.

Eu também convidava crianças grandes, de 6 a 8 anos, para ler histórias para as crianças pequenas, de 4 ou 5 anos. As grandes se sentiam valorizadas e as pequenas se encantavam por ter um amigo grande lendo para elas.

Em outras ocasiões, as crianças teatralizavam as histórias dos livros, e chegavam a improvisar fantasias.

Todo este encantamento me remete a uma fala de Rubem Alves: “Eu estou pensando há muito tempo em propor o novo tipo de professor. É um professor que não ensina nada, não é professor de matemática, de história, de geografia. É um professor de espantos. O objetivo da educação não é ensinar coisas, porque as coisas já estão na Internet, estão por todos os lugares, estão nos livros. É ensinar a pensar. Criar na criança essa curiosidade. Para mim esse é o objetivo da educação: criar a alegria de pensar.”

Com tantas possibilidades de encantamento na descoberta das letrinhas, como se faz possível ainda encontrar professores desencantados, que acreditam na alfabetização mecânica, repetitiva, imposta e sem sentido do Ba-Be-Bi-Bo-Bu, Pa-Pe-Pi-Po-Pu e do Ta-Te-Ti-To-Tu.

Por mais professores encantados e encantadores.

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Imagem: Doll-E 1.0 - https://www.nytimes.com/2018/05/18/books/review/unplugged-steve-antony.html

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