O Ensino Tradicional fossilizou

A "ensinagem" morreu faz tanto tempo, mesmo assim quase todas as escolas e universidades no Brasil insistem em carregar o defunto.

Tudo que não evolui tende a fossilizar. A educação teve muitas oportunidades de evoluir, mas preferiu se acomodar.
O que temos hoje, não dá mais para melhorar, é preciso transformar a educação. É preciso ter coragem para voltar à estaca zero.  
Qualquer ação de cunho motivacional com o intuito de florear o ensino tradicional é embuste.
Nosso sistema educacional é ineficiente há mais de 4 décadas e precisa de cuidados intensivos e não de joguinhos, festinhas, amenidades, piadas ou purpurina. Estou cansada das maquiagens pedagógicas.

Minha querida ex-aluna Cris, que hoje está cursando Pedagogia, me enviou fotos de sua apostila, exatamente das páginas que falam sobre o Ensino Tradicional. Como não era de se surpreender, o texto expressa em detalhes o quão ineficiente é esta abordagem. Segue dois pequenos recortes:

Paulo Freire afirmou que essa educação bancária era um instrumento da opressão.
A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em ‘vasilhas’, em recipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador. Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem docilmente ‘encher’, tanto melhores educandos serão.
 Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar em que os educandos são os depositários e o educador o depositante.
Em lugar de comunicar-se, o educador faz ‘comunicados’ e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção ‘bancária’ da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fixadores das coisas que arquivam. (FREIRE, 1983, p. 66)

“Tal como acontece com qualquer sistema baseado na autoridade imposta, este sistema enfraquece a autonomia e a responsabilidade dos alunos em seus processos de aprendizagem, o que leva a uma dependência do professor e a restrição com base em seu saber já adquirido. Reafirmando o que disse Paulo Freire (1983, p. 66) '[...] nesta destorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros.'” ¹

Sobre a Educação Tradicional, apresento o texto de Larissa Cabral (entusiasta da educação). Ela me enviou assim que leu "... e sem perceber, você se tornou uma Quenga Pedagógica"  
Fui ensinada a não deixar as crianças falarem. a me sentir ofendida com o barulho, com o movimento do corpo de alguém, enquanto eu, com raros intervalos, palestro sobre a aventura do conhecimento.
Conhecimento que me dá o título da palavra, o poder da palavra, o poder de autorizar ou não um pensamento, uma criatividade, um comentário.
Eu fui ensinada a ordenar um rebanho, eu fui ensinada a não permitir que as crianças se decidam ou se organizem.
Fui ensinada a controlar o tempo, a controlar a sede, a controlar a vontade de fazer xixi, controlar a vontade de falar, de levantar e de sentar.
Fui ensinada a controlar a leveza, a controlar o desejo, controlar o rir.
Fui ensinada a ser temida, a punir a ousadia, a curiosidade, a punir um sonho, uma verdade, uma vontade.
Fui ensinada a nomear um outro; burro, desinteressado, agitado, mal educado, inteligente, malandro, preguiçoso, mal caráter.
Fui ensinada a me comportar como dona das pessoas e das palavras.
Mas eu, não era assim.
As crianças foram ensinadas a ficarem em silêncio, pois não teriam o que dizer. Foram ensinadas a não falar e mascarar seus sentimentos.
Foram ensinadas que não sabem e que não poderiam ensinar.
Ensinadas que são irresponsáveis e ainda incapazes de conhecer o mundo.
As crianças foram ensinadas a serem assim, mas não eram.

É perturbador tentar imaginar porque o Ensino Tradicional, apesar de comprovadamente falho, criticado em todos os livros didáticos e cursos de licenciatura, contestado pelos principais teóricos da educação, é amplamente aplicado no Brasil. Mesmo naquelas escolas e universidades que camuflam o Ensino Tradicional e se dizem “inovadoras”, adotam aulas expositivas (educação bancária) e muitas vezes até uma apostila.

Fazemos uso do Ensino Tradicional (camuflado ou não) e estamos entre os 10 piores países no mundo em educação (segundo o indicador PISA). Estamos entre os 10 piores países no mundo em educação, pois adotamos o Ensino Tradicional.
Até quando?

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Link recomendado: Autonomia na educação: maquiagem, utopia ou necessidade

1 - CARVALHO, Ana Cristina N. de. APRENDIZAGEM POR PROJETOS: uma alternativa à desfragmentação da educação universitária. Trabalho de Conclusão de Curso – MBA em Gestão de Projetos - Centro Universitário Estácio de São Paulo, 2018

Imagem: Reimund Bertrams - https://pixabay.com

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