Deus proteja seus filhos das escolas

A curiosidade não teve morte súbita. Ela teve uma morte dolorosa e muito lenta. Lutou quase uma década para sobreviver, mas sucumbiu. Esse processo foi detalhado no artigo A escola que "matou" Miró, criou um nem nem.

Essa semana, em duas ocasiões diferentes, estive com duas menininhas de 3 e 5 anos. Eram crianças vívidas, com olhos brilhantes, curiosidade aguçada e questionamentos mil. Ao ir embora, nas duas ocasiões eu disse "Deus proteja essa menina das escolas".

No fundamental I, os primeiros sintomas da degeneração da curiosidade surgiram com a adoção das apostilas que padronizavam o que e em qual ritmo algo deveria ser aprendido.
Em seu primeiro dia na escola, o pequeno Felipe indignado pergunta para sua professora (ALVES, 2005, p.31):
– [...] Quem foi que colocou em fila as coisas que devo aprender?
– Quem põe os conhecimentos em fila são pessoas muito inteligentes, do governo.
– E como é que eles sabem o que quero aprender se não me conhecem e moram longe de mim?
  A escola não é para você aprender aquilo que você quer aprender – disse a professora. – A escola é para você aprender aquilo que você deve aprender. O que você deve aprender é aquilo que disseram os homens inteligentes do governo. Tudo na ordem certa. Uma coisa de cada vez. Todas as crianças ao mesmo tempo. Na mesma velocidade... 
Logo Felipe aprendeu que "na escola os conhecimentos não valem por sua utilidade. Valem porque vão cair nas provas..."

No fundamental II, a curiosidade lutou para sobreviver ao processo massificador, desinteressante e desumanizador das escolas que usam todos os artifícios para eliminar o brilho nos olhos das crianças em aprender coisas novas. 
No ensino médio, a curiosidade foi para a UTI e nunca mais saiu de lá. Nem mesmo a universidade da profissão escolhida pelo aluno mudaria este triste quadro. A apatia estava instaurada.

Uma querida e competentíssima professora me pediu ajuda. 
Ela relatou o caso de uma turma de universitários, onde já utilizara vários formatos diferentes de aula - aula tradicional expositiva, aula invertida, estudo de caso, atividade em equipe - e nada despertou o interesse de seus alunos. Na última aula, em profunda angústia, ela deu uma bronca na turma.
Dedicamos um tempo para refletir juntas.
Eu disse que uma opção seria fazer uma dinâmica (estilo percurso) para a conscientização do protagonismo dos alunos. Seria uma dinâmica emocionalmente pesada, mas boa parte da turma acabaria o percurso se percebendo agente ativo no processo de aprendizagem.
Outra opção seria entregar o que eles querem: amenidades. 
Tratar os alunos com amenidades é o caminho mais tranquilo, eles fazem trabalhinhos bem simples, não leem textos e assistem videozinhos do YouTube de até 5 minutos. Assim eles não reclamam de nada. A Zona de Conforto mantém os alunos calmos.

Mais tarde naquele mesmo dia, passei um trabalho para meus alunos que exigia o desenvolvimento de pensamentos complexos. Meus alunos sofreram muito para entender e desenvolver o que estava pedindo. A maioria não entendeu.

A escola não prepara esses jovens para desenvolver pensamentos complexos. O sistema educacional em linha de montagem restringe a capacidade do pensar, permitindo apenas o desenvolvimento de pensamentos lineares e a reprodução dos pensamentos alheios em respostas prontas e decoradas.
A intenção da linha de montagem é a perda da noção do todo. Por exemplo: um indivíduo perde a capacidade de construir uma cadeira e passa a ser um colocador de uma das 4 pernas. Essa ruptura com o todo, fragiliza as argumentações, as conexões, os cruzamentos dos saberes e nivela o conhecimento por baixo, limitando qualquer potencial criativo ou inovador. 
Sair da Zona de Conforto causa muita angustia, pois obrigatoriamente é necessário passar pela Zona do Medo, antes de chegar na Zona da Aprendizagem.


Uma aluna angustiada quis conversar. Sua fala aflita era o retrato do medo do desconhecido. 
Sentei-me ao seu lado e com um olhar afetuoso deixei claro que compreendia sua angustia, mas continuaria a incentivá-la a se esforçar.
Em um determinado ponto da conversa, eu disse para ela que qualquer instituição de ensino prefere vê-la feliz, mas essa felicidade fácil mora apenas na Zona de Conforto. 
Disse à ela que preferia vê-la saindo da Zona de Conforto. Este processo dá muito mais trabalho e é extremamente desgastante, mas deixei claro para ela que na Zona do Medo eu estaria ao seu lado, incentivando e encorajando a superar as barreiras para alcançar a Zona da Aprendizagem. Este difícil percurso gera um sentimento de potência e felicidade por se perceber capaz e protagonista no processo.
Com muita esperança, quero ver meus alunos na Zona de Superação.

Para o que mesmo as instituições de ensino estão preparando essas crianças e jovens?

Links relacionados: Seu foco é nota OU aprendizado?

Ilustração de Lucas Garcia

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Comentários

  1. Obrigada pela reflexão. Caminhamos juntos em busca do brilho nos olhos das crianças.

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