Um olhar sobre o aluno - por Lucilla Pimentel e João Martins [1]

Falar do olhar não é a mesma coisa que falar do ver. Apesar de ambos partirem do mesmo recurso, a visão, há algo que os diferencia. E é sobre isto que abordaremos neste artigo, sobretudo porque queremos nos referir ao olhar do educador.
Mas, o que é olhar, esse ato que num primeiro momento nos parece tão simples?
Marilena Chauí (2002) aborda minuciosamente sobre o olhar, partindo de diferentes modalidades do verbo grego ver (eidô) – observar, examinar, instruir-se, conhecer, saber – para assinalar laços entre ver e conhecer.  Rubem Alves e Madalena Freire, em vários de seus artigos, relacionam olhar com o ato educativo e coincidem na afirmação de que ele precisa ser aprendido, pois não fomos educados para o ver e nem para o escutar.

Introduzimos esses autores, como ponto de partida para a discussão desse tema, porque ultrapassam a noção popular de que o olhar é sinônimo de ver e nos conduzem a pensar sobre a reeducação de nossos sentidos, principalmente a visão quando se trata de olhar para o aluno. Isto nos dá espaço para afirmarmos que o algo a mais do olhar é a capacidade reflexiva frente aquilo que se vê. E o mesmo se dá com o ouvir, cujo ato reflexivo é o escutar. O que queremos dizer é que, encontra-se inserido no reflexivo uma intencionalidade e a possibilidade de conhecer de modo mais amplo o que o olhar e o escutar nos oferecem. Portanto, tornam-se saberes e competências essenciais na ação educativa.

Olhar e escutar não são assim tão naturais, pois dependem da função que lhe atribuímos. Podemos ver mecânica e passivamente o objeto a ser observado, atendendo à função natural que exercem os olhos como órgãos da visão (ver), e os ouvidos como os da audição (escutar).
Podemos passear com os olhos. Com eles distinguimos e reconhecemos objetos, pessoas, cores, perspectivas, aparências, formas, volumes, associados a uma multiplicidade de sons, para adequarmos nossa ação. No entanto,quando se trata de alunos, limita-se a este ato de ouvir e ver é praticamente insignificante. Adotando as palavras de Rubem Alves, os olhos não gozam, não há prazer nem participação afetiva.

O que tentamos evidenciar, aqui, é que o educador precisa aprender a ver o aluno com os olhos reflexivos, estes que trazem o sabor da curiosidade para a descoberta, que buscam o entendimento, de percepção aguçada, que se desdobram para rever, conhecer e explorar, no sentido de ativar possibilidades que esse aluno pode garantir de melhor, para si mesmo e para os outros.
Estamos falando do olhar investigativo do educador que se junta em cumplicidade com a escuta para se fazer presença e querer saber: “o que vejo?” Que aluno é esse que meus olhos contemplam e que se coloca diante de mim com expectativas e esperanças? Qual é a sua sede? De que lugar ele fala? O que espera de mim quando me olha, deixa-se seduzir pelas minhas palavras e por esta meu olhar que toma como objeto de investigação? ”

Há nesse confronto de olhares, uma captura recíproca, da qual não podemos nos esquecer. Isto significa que o aluno também cede à provocação sentidos para nos perceber e nos conhecer. E nessa ação deliberativa, o perceptível e o cognitivo não se estranham, mas se completam, que podemos falar do ato de comunicação entre educador e aluno, cuja peça canalizadora e integrante é o olhar, olhar que ao se comunicar faz mediações com o saber.

É com olhar de educador que o aluno se presentifica e se deixa capturar pelo fascínio de ser descoberto e merecedor de atenção. Por outro lado, alguma coisa reverbera no corpo do educador que o percebe: também o professor é alvo do fascínio e deseja obter atenção.
Contudo, não queremos falar apenas do olhar que toca a sensibilidade do educador, mas daquele que é expressão de sintonia e presença. E, para ser presença, é necessário também colocar-se à própria escuta, estar aberto, desprovido de modelos estereotipados e de um querer ver somente aquilo que agrada e recompensa.

Isto que assinalamos deixa claro que há muito para se aprender com o olhar e, nessa aprendizagem, em primeiro lugar, um questionamento sincero sobre si mesmo, como pessoa e como educador. É com essa abertura interior que seremos capazes de exercitar o olhar tolerante, aceitar o outro como ele se revela aos nossos olhos, tal como é, trazendo na mochila a sua história, a sua realidade pessoal, com suas dificuldades, fracassos, mas também com seus desejos e seus sonhos.

O olhar de um educador precisa ser aquele que desvenda o mistério escondido nos olhos que o fitam, tantas vezes de forma insegura, aflita, temerosa, e que o perseguem em busca de respostas. Como são tristes os olhos quando não contam com a atenção pretendida, quando veem morrer a esperança de serem reconhecidos.

É o olhar atencioso que desvela mistérios e sombras. Exercitá-lo é também torná-lo mais profundo e justo, despojado de preconceitos, que sabe discernir para avaliar e ajustar situações de conflito. Olhar que comunica adultidade, confiança e segurança; que mobiliza ações coerentes com aquilo que os olhos atentam. O olhar de atenção é provocativo e perseverante, sem pausas, sinônimo de cuidado e zelo, capaz de incitar e reconhecer mudanças.

Lembrando Rubem Alves, para que os olhos gozem, é preciso que eles sintam prazer, e no caso do educador, prazer de aprender a olhar e, com ele, dedicar-se a ir muito além das aparências...


[1] ALVES, Rubem. “A complicada arte de ver”, em Folha de São Paulo, Caderno Sinapse, 20/10/2004.
CHAUÍ, Marilena. “A janela da alma, espelho do mundo”, em NOVAES, Adauto. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 31-63.
WEFFORT, Madalena Freire. “Educando o olhar da observação”, em Espaço Pedagógico, Série Seminários, s/data.


Imagem: Ilustração do livro: Mariana e a Missão Primavera

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