A música como linguagem - por Leonardo Posternak


Já no útero, o bebê descobre o ritmo e o som: do coração, da voz materna, do mundo que o espera aqui fora.
Minha esposa, musicoterapeuta, me deu um presente na forma de uma bonita história que agora ofereço aos leitores: “Em uma tribo cigana no sul da França, quando o melhor executante de um instrumento musical está envelhecendo, decide-se que uma criança ocupará seu lugar. Assim, nas últimas semanas de gravidez de uma cigana, o músico toca diariamente seu instrumento para o bebê e continua a fazê-lo após seu nascimento por mais alguns dias. Eles afirmam que, fazendo isso, essa criança, quando atingir a idade do desejo de se expressar, tocará maravilhosamente esse instrumento”. 
Constatamos que a música é mais que uma palavra ou um som. É uma mensagem com significados, uma verdadeira linguagem. Bonito demais.
Ainda no útero materno, o bebê entra em contato com estímulos auditivos fundamentalmente por meio de um dos elementos básicos da música, que é o ritmo. O coração da mãe tem ritmo, os barulhos do intestino também e, principalmente, o mais importante de todos os sons: a voz materna. A voz humana é o primeiro instrumento musical que o homem primitivo usou antes da criação dos instrumentos e que continuamos usando.
Ao nascer, o bebê descobre os barulhos de seu corpo e os do mundo exterior. Desses últimos, a voz da mãe é o pilar do relacionamento musical-amoroso entre a dupla mãe/bebê. A mãe traz seu repertório de velhas cantigas infantis, de músicas de roda e aquelas que surgem de sua criatividade ao se comunicar com seu filho. Tudo é comunicação, tudo é linguagem, tudo é afeto e assim vai se construindo um sujeito feliz e saudável.
De maneira sutil e lúcida, uma comunicação vai se construindo por meio dos movimentos, gorjeios e sons balbuciados pelo bebê, porque os pais lhe dão um sentido, uma codificação aos sons emitidos pelo filho.
Ninguém precisa ensinar para a mãe de uma criança pequena que é importante cantar, bater palmas ou pés, fazer movimentos corporais ritmados etc. Isso é parte da sabedoria das mães. O prazer que desperta como resposta no bebê humano a musicalidade no sentido amplo da palavra não é fruto da inteligência nem da cultura, é fruto da sensibilidade, que é universal e atemporal. Os ciganos franceses sabem disso.
Aos pais atentos e coerentes caberá compreender e respeitar o quanto a música atinge ou não a sensibilidade afetivo-sensorial do filho. As mães não cantam canções de ninar (ou não deveriam) aos bebês para que futuramente virem êmulos de Mozart. O fazem porque cada momento afetivo é importante no presente, sem pensar no que vai acontecer mais para a frente. Lembremos que o futuro da criança é hoje.
Música, dança, pintura, a arte em geral só satisfaz a criança se existe interesse por parte dela. Ou seja, se os pais pretendem satisfazer seu desejo de dançar ou tocar um instrumento por meio do filho, isso confunde e certamente não vai dar certo.
O mais importante é que a criança não seja forçada nem frustrada em seu direito de descobrir e experimentar as coisas em seu tempo, que por sinal é o tempo certo.

DR. LEONARDO POSTERNAK, PAI DE LUCIANA E THIAGO, PEDIATRA E PRESIDENTE DO INSTITUTO DA FAMÍLIA (IFA)
por LEONARDO POSTERNAK, pai de Luciana e Thiago, pediatra e presidente do Instituto da Família (IFA) 28 de fevereiro, 2008


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