Muito além da mesada

Há sete anos, a consultora Cássia D'Aquino aplica com sucesso o seu Programa de Educação Financeira em escolas brasileiras. O tema é delicado, mas, em tempos de direitos do consumidor, ela se vangloria: "Eu me orgulho muito de dizer que, nesses anos todos, não recebi uma única reclamação de pai algum." Foi-se o tempo do cofrinho. Em vez de tostões depositados no simpático porquinho de cerâmica, hoje os bancos oferecem contas correntes e fundos de investimento para quem sequer ganhou seu primeiro salário. Mas sacar as economias diretamente do caixa eletrônico não garante que crianças e adolescentes saibam fazer uso do dinheiro de maneira saudável.

Os pais que digam o quanto isso dói no bolso: tem muito garotão crescido que ainda engatinha quando o assunto é educação financeira. Especialista em formar consumidores responsáveis, a consultora Cássia D'Aquino resolveu estudar o que está na cabeça de quem prefere torrar tudo o que ganha e esperneia para ganhar tudo o que vê na vitrine.

Para ela, uma das raízes do problema é que, nas famílias urbanas de classe média, "todas as situações de convívio ficam reduzidas a alguma situação de consumo. Os pais estão sempre comprando alguma coisa e as crianças, claro, percebem que esse é o jogo". Para evitar que os pais paguem caro demais por isso, ela criou o Programa de Educação Financeira.

Nesse método, tempo é dinheiro. Tudo começa aos dois anos. Desde a tenra idade, as crianças devem ser gradualmente orientadas a distinguir as coisas caras das baratas, cortar extravagâncias e aprender rudimentos de poupança. O problema, segundo Cássia D'Aquino, é que o mau exemplo vem de berço: "Muitas vezes, os pais são, eles mesmos, grandes consumistas ou displicentes com o dinheiro."
Cássia explica por que a mesada é um extraordinário instrumento para conter o impulso de gastar dos filhos, mas alerta: "É preciso tanto cuidado ao se estabelecer a mesada que, ou se faz direito, ou é melhor que não se faça." Na entrevista a seguir, ela responde a questões que vão muito além da mesada. A relação de dúvidas é do tamanho da listinha de compras das crianças.

Seu interesse em educação financeira de crianças teve alguma motivação pessoal? Seus filhos tiveram dificuldades em lidar com dinheiro?
Não, não é nada disso (risos). Meu caminho ao encontro da educação financeira foi bem diferente. Na universidade eu trabalhava na área de Ciência Política, com consolidação da democracia. Como é que a gente faz para ter uma democracia sólida no Brasil? É um preceito da Ciência Política que o capitalismo é o inventor da democracia moderna. Existem várias ditaduras capitalistas, mas não há democracia moderna que não tenha sido capitalista. De modo que, se a gente quiser ter algum dia uma democracia decente temos que ter um capitalismo decente também, e não essa esculhambação que a gente vê. A esse impasse acadêmico, eu somei minha experiência como professora de crianças pequenas e como mãe. Foi daí que saiu o Programa de Educação Financeira.

Em geral, os pais se preocupam com a educação financeira dos filhos quando eles estão naquela fase de querer tudo. Você defende que, quanto menor a criança, melhor o resultado da educação financeira. Em que fase do desenvolvimento da criança é ideal começar?
Você tem filhos?

Ainda não.
Ah! Percebi. A idade que eu recomendo para esse início é dois anos. É justamente a idade em que eles começam a pedir as coisas. A gente não está se antecipando a essa fase, ela coincide. E, com o passar dos anos, as coisas só pioram...

E por que a situação se agrava? Mais ou menos nessa fase a criança é o xodó da família. É comum que pais, tios e avós adquiram o hábito de dar presentes além da conta. Eles, sem querer, estão contribuindo para formar uma criança pródiga, gastadora?
Vamos por etapas. Os mimos dos tios e avós são uma delícia da vida, não é? Isso é ótimo. O problema é dosar isso de forma que não atrapalhe a educação das crianças, porque há tios e avós que atropelam mesmo, não querem nem saber!
Mas eu acho que não é essa a origem da precocidade das crianças em pedir coisas e querer consumir. Uma criança de dois anos mal sabe falar e, no entanto, vai ao shopping ou ao supermercado e fala: "Eu quero, qué, qué isso, qué aquilo, qué aquilo outro!"
A explicação para isso tem mais a ver com o seguinte: as famílias urbanas modernas, de classe média, se encontram basicamente em situações que envolvem consumo. Se o pai e a mãe trabalham fora, então no fim de semana a família sai para comer, ou vai ao shopping, ou pede uma pizza, ou assiste à televisão e se expõe à publicidade.
Enfim, todas as situações de convívio familiar ficam reduzidas a alguma situação de consumo. Os pais estão sempre comprando alguma coisa e as crianças, claro, percebem que esse é o jogo. Se os pais e as crianças estão juntos, então têm que comprar alguma coisa. E é o que acaba acontecendo mesmo. Elas sempre pedem para comprar alguma coisa, porque é o que a família faz! Esse é o grande problema.

É por isso então que, em seus livros, você sugere aos pais que falem sobre sua profissão e levem os filhos ao seu local de trabalho? É para a criança se envolver mais com situações de trabalho, não só de consumo?
É, não há dúvida. Os pais não se dão conta da importância que tem para as crianças conhecer o ambiente de trabalho e ter alguma noção sobre o que os pais fazem. De modo geral, o que acontece é o pai ou a mãe saírem para trabalhar e dizerem ao filho: "Vou sair para ganhar dinheiro." O que as crianças compreendem — e é fato concreto porque verifiquei isso —, é que o pai e a mãe vão ganhar dinheiro como elas ganham presentes de Natal. Os pais vão a algum lugar e alguém, por alguma razão, dá-lhes dinheiro. Isso é muito confuso para as crianças. Elas não entendem que há um trabalho remunerado e que daí é que advém o ganho do dinheiro. Agora, francamente, se os pais ganham dinheiro mole, mole, fácil, fácil, então é quase covardia eles não comprarem o que as crianças querem. É ser muito mesquinho... Esse processo poderia ser muito mais tranqüilo se os pais, por menor que seja a criança, naturalmente respeitando a capacidade de compreensão em cada idade, sempre explicassem por que estão saindo de casa, que tipo de trabalho fazem e rudimentos do processo de remuneração.

Muitos pais dizem: "Meus filhos não dão valor ao dinheiro." Acho que você acabou de explicar o motivo...
Esse é um dos motivos. Muitas vezes os pais não ensinam o valor do dinheiro (risos). E se não ensinam não se pode esperar que os filhos tenham essa compreensão do nada. Muitas vezes os pais são, eles mesmos, grandes consumistas ou displicentes com o dinheiro. Em relação aos filhos, têm uma preocupação intensa e muito diferente da que têm em relação à própria vida. Então, é mais fácil dizer "você acha que meu dinheiro é capim?" do que levar a vida de adulto sabendo que dinheiro definitivamente não é capim.

Outra sugestão que você dá aos pais em seus livros deixaria alguns deles de cabelo em pé! A idéia é fazer a criança participar da elaboração do orçamento familiar ou da lista de compras do supermercado. Os pais não ficam constrangidos de "quebrar o seu sigilo bancário"?
São coisas diferentes. Uma coisa é ajudar a fazer a lista de supermercado, outra coisa é ter alguma noção de orçamento doméstico. Quais são as prioridades, se esse ano vamos viajar nas férias, trocar de carro ou comprar uma tevê maior. Tudo isso vai exigir que a gente reajuste os nossos gastos.
Outra coisa completamente diferente é dar aos filhos poder sobre informações de caráter estritamente pessoal, como quanto você ganha, quanto tem no banco. Isso não é assunto para filho, ele não tem que se meter nisso. Às vezes, os pais fazem essa confusão. Para deixar bastante clara essa diferença, eu digo que uma coisa é você dar educação sexual ao seu filho e outra é você lhe dar liberdade de perguntar se você transa ou não, quantas vezes, o que você faz ou deixa de fazer. A mesma coisa ocorre em relação ao dinheiro. É preciso que os filhos percebam que existe um limite até para isso.

Na imposição de limites ao consumo dos filhos, você não acha que um dos pontos que dificultam é que os pais têm uma preocupação excessiva em "dar aos filhos tudo o que não tiveram"? Isso não complica as coisas?
Eu compreendo perfeitamente que a gente queira dar tudo aos filhos. Quando ainda são pequenininhos, com qualquer pequena alegria que tenham, eles abrem um sorriso tão encantador, é uma coisa tão gostosa de ver, é tão gostosinho o abraço que dão em você que dá vontade de fazer tudo o que eles querem.
Mas, cada vez mais cedo, as crianças estão assumindo atitudes de tanta indiferença com os pais que é algo impressionante. Em primeiro lugar, não agradecem por nada! E não é só um problema de educação, aquele "obrigado, por favor, dá licença". É uma indiferença absoluta. O que se acaba ensinando à criança é que ela tem direito a tudo que quiser na vida, é um direito natural, e não precisa agradecer coisa alguma. Nessa brincadeira, o que os pais acabam fazendo é tirar a coisa mais preciosa, o que não se poderia tirar nunca de um filho, que é o direito de desejar as coisas.
O que eu sempre digo é que os gregos é que sabiam tudo e dos gregos para cá tudo o que a gente faz é repetir o que eles disseram para não deixar a conversa morrer. Eles já diziam que a Eros, que corresponde a qualquer desejo, qualquer impulso, se contrapõe Tânatos. Ou seja, na ausência do desejo advém a morte.
Então, não é estranho que as crianças comecem a beber, a se drogar cada vez mais cedo, a ter comportamentos de riscos tão freqüentes. A esses meninos não se está ensinando a desejar nada. Nesse afã de dar aos filhos tudo o que não tiveram, os pais estão criando filhos que não querem nada. Isso é de uma crueldade absoluta. Não há nada mais gostoso na vida do que a gente esperar para ter alguma coisa. Você tecer aquele desejo é uma delícia, e os pais não têm o direito de tirar isso dos filhos.

Não sei se há relação com o que você acaba falar, mas às vezes as crianças manifestam esse vazio, esse descontentamento por ganhar ou ter coisas em excesso. Elas pedem um brinquedo e logo percebem que não era aquilo que queriam...
Elas enjoam!

Essa é outra situação que poderia assumir um caráter de diálogo educativo, mas os pais a desperdiçam, não é?

Essa é uma ponderação muito boa. Se os pais prestassem atenção nisso, de dar um brinquedo e o filho não se interessar, perceberiam que tem alguma coisa errada. Ou de fato ele não queria aquele brinquedo, porque isso acontece muito, ou os pais já estão pisando na bola há muito tempo. Ele ganhou fácil demais, foi na hora errada. Os pais ficam frustrados e descontam na criança. Em relação àquilo que você me perguntou antes —"você não dá valor ao meu dinheiro?" —, a criança não pode dar valor mesmo se ela não pediu aquilo.

A mesada é um dos recursos, muitas vezes o único, que os pais usam para regular os desejos e a possibilidade de concretizar os desejos. Só que mesada se tornou sinônimo de "reserva de dinheiro para os filhos gastarem". Nos seus livros, você trata muito bem da importância de ensinar a poupar e eventualmente doar parte desse dinheiro. Como os pais podem despertar isso nos filhos?
O que os pais têm que compreender é o seguinte: em primeiro lugar, mesada não é obrigação de pai e mãe. Mesada não é presente. Portanto, mesada tem que ser dada como um instrumento de educação financeira dos filhos. Porque faz toda diferença do mundo você dar essa mesada e o filho sentir mais uma vez que isso é um direito, por ele existir. Então, pensa que os pais têm obrigação de dar dinheiro e que ele pode gastá-lo de qualquer jeito. E não pode ser assim. Dar mesada é um instrumento extraordinário de educação, mas é, certamente, uma das coisas mais difíceis de se administrar. É preciso tanto compromisso, tanta atenção, tanto cuidado ao se estabelecer a mesada que, ou se faz direito, ou é melhor que não se faça, porque o risco de criar um problema é realmente muito alto.
Eu li uma matéria no Estado de S. Paulo sobre garotos de 12 ou 13 anos que começam a beber em bares e usam o dinheiro da mesada para pagar a bebida. É o cúmulo do absurdo! Mesada existe exatamente para que você tenha alguma noção de como esse dinheiro está sendo gasto. É evidente que esses jovens estão recebendo dinheiro de forma indevida. Entre outras coisas, os pais têm que definir que tipo de consumo eles não vão admitir, não tem esse papo de: "É meu dinheiro, a mesada é meu dinheiro!" "Meu dinheiro coisa nenhuma! É um dinheiro que está sendo dado para você ir se educando para a vida adulta, então não admito que se compre cigarro, bebida ou revistas do tipo tal, tal e tal", conforme o julgamento dos pais. Os pais têm que ficar muito atentos em relação à mesada para não arrumar um problema ainda maior.

Mas, colocando-se à parte esses produtos que claramente os filhos não deveriam consumir, é correto os pais monitorarem ou darem palpite sobre a compra de produtos que julguem fúteis, supérfluos?
Aí é que está. O que é um produto fútil vai variar conforme a percepção de cada um. Se você gosta de pescar, vai adorar comprar aquelas "porcariadas" todas: iscas, anzol, carretel de linha, etc. (risos) Para você isso jamais será supérfluo, jogar dinheiro fora. Os homens jamais entenderão como as mulheres podem gastar tanto dinheiro com cremes que parecem todos iguais, não é? É preciso ter essa compreensão também em relação aos filhos. Figurinha pode ser uma bobagem para a gente. Agora quando a gente tem cinco, seis anos, figurinha é tudo, é o máximo! De qualquer maneira, uma das tantas vantagens da mesada é que ensina a fazer escolhas em relação ao consumo. Então, mesmo que você ache comprar algo uma bobagem, excetuando aqueles casos-limite já citados, deixa porque seu filho está aprendendo. É melhor do que fazer bobagem na vida adulta. Uma hora ele vai perceber que, em cada pacote, quatro são repetidas e, portanto, está jogando seu dinheiro fora. O pacote de salgadinho tal, tal e tal custa tanto... A mesada serve exatamente para aprender a fazer escolhas. O pai deve se concentrar na poupança da mesada dos filhos. Eles devem se preocupar e incentivar os filhos a poupar.

Até porque sem a intervenção dos pais dificilmente a criança vai atentar para a necessidade de poupar, não é?
É, de jeito nenhum. Não é algo natural você separar dinheiro para poupar. Agora, se os pais disserem: "Você quer aquela bola, ótimo. Então, você precisa juntar tanto por tantas semanas." Isso é uma coisa que você vai fazendo devagarinho e, quanto menores as crianças, mais curtos devem ser os prazos, para que ela perceba que há prazer em poupar. Evidentemente não se pode querer que a criança seja um Tio Patinhas, porque um comportamento desse tipo é patológico. Uma pessoa que sofre para gastar dinheiro tem problemas, assim como a pessoa que sofre porque não consegue poupar. O bom em relação ao dinheiro, que só existe para termos prazer, é que a gente consiga gastá-lo na medida do bom senso e poupá-lo na medida do que precisamos.

E nesse caso se aplica o que foi dito no início, ou seja, quanto antes ensinar a poupar melhor? Como os pais podem fazer isso desde a primeira infância?
Como já disse, as famílias praticamente só se encontram em situações de consumo, e esse mal pode vir para o bem. O tempo todo você tem a possibilidade de falar sobre coisas caras e baratas. Vamos supor que os pais vão à padaria. Então, para a criança de dois anos, o simples comentário da mãe "nossa, como esse biscoito está caro", mesmo só a palavra "caro", já vai chamar a atenção da criança. Só isso, só o simples fato de mostrar que há coisas caras e coisas baratas já a faz perceber que existe uma racionalidade no uso do dinheiro, existem categorias diferentes e é preciso estar atento a elas. Tudo isso vai mostrando que ela tem que usar o dinheiro com atenção, coisa que muito adulto não aprende.

E como a escola pode contribuir nesse processo? Como ela pode tratar do assunto sem interferir nas opções de consumo de pais e alunos, sem definir um consumo "desejável" ou "reprovável"?
Em primeiro lugar, já passou da hora de a escola perceber que, se ela continuar funcionando em cima de bases antigas, continuará sendo desinteressante tanto para os alunos como para os pais. O mundo mudou muito e a escola tem que se aperceber disso e agir de acordo. Não adianta ela ficar amuada num canto reclamando que os alunos são muito consumistas. É preciso que faça alguma coisa em relação a isso.
Por outro lado, é evidente que esse é um assunto delicadíssimo e não tem cabimento a escola forçar a barra para cima dos pais. É de novo aquela máxima: o padrão de consumo é um assunto tão subjetivo que você não pode dizer para uma criança: "Eu acho uma bobagem o jeito como vocês fazem isso em casa." É lógico que não dá para falar isso.
Se a escola souber conduzir com bom senso o que diz respeito a dinheiro — e para isso, naturalmente, os professores devem ser muito bem preparados e o contato entre os pais e a escola deve se dar de maneira sincera e honesta —, não há razão para temer nenhum tipo de problema. O Programa de Educação Financeira é aplicado há quase sete anos e eu me orgulho muito de dizer que, nesses anos todos, eu não recebi uma única reclamação de pai algum. Exatamente porque as situações são conduzidas de modo a obter o melhor para o aluno, em casa e na escola, e não para fazer desse assunto um centro de conflito com os pais.

E dentro do campo das práticas pedagógicas, como esse tema é tratado? A escola segue as orientações do que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) definem como "educação para o consumo"?
Os Parâmetros Curriculares acabaram virando um assunto interessantíssimo em relação à educação para o consumo. Ficou definida a necessidade e, no entanto, não se sabe o que se pretendia com isso. Foi um lobby muito bem-feito, muito bem-vindo, mas não se criou a base para que as escolas possam atuar, o que é uma maluquice! Porque qualquer um faz qualquer coisa de qualquer jeito e não se está chegando a lugar algum. Exatamente porque é um assunto muito delicado, deveria se ter pensado nisso antes de estabelecer o lobby.
O programa começa quando a criança tem dois anos e continua até ela chegar aos 12. Ele tem um caráter multidisciplinar, de modo que muitas das coisas que as crianças aprendem aos dois anos vão continuar sendo trabalhadas até que cheguem aos 14, com muito mais sofisticação e abordagem mais complexa.
Os assuntos são levados adiante partindo do seguinte princípio: o modo como a gente lida com o dinheiro é conseqüência de como a gente lida com uma série de outras situações na vida: desejo, ambição, segurança, auto-estima. O dinheiro vai ser só o concreto de como a gente pensa todo o resto. É preciso preparar as crianças para isso se esperamos que, na vida adulta, elas possam vir a ter uma relação saudável e responsável com o dinheiro. Então é preciso que você ensine a criança a ganhar dinheiro, gastar, poupar, doar, mas, sobretudo, é preciso que você ensine que existe uma ética muito clara para ganhar e gastar dinheiro. Isso é fundamental porque, ou a gente começa a fazer isso de uma vez, ou vamos continuar ano após ano lamentando que o país é tão corrupto que todas as relações se dão de um modo doentio e que não existe ética.

Outra coisa que se lamenta, ano após ano, sem que se faça algo, são os "maus hábitos" de consumo que os filhos adquirem na escola, por causa da convivência com colegas de famílias de renda mais elevada. Como enfrentar esse delicado problema?
Essa é uma pergunta muito boa, mas muito complexa. Dá para falar duas horas sobre isso. Em primeiro lugar, essa aflição em relação aos padrões de renda diferentes na mesma classe é na verdade uma aflição dos pais. São os pais que ficam incomodados com isso. Eles percebem que o colega do filho tem mais, que a outra família tem mais, e então projetam isso no filho. Os filhos, quando percebem o mal-estar, o incorporam. Mas entre as crianças, naturalmente, isso não existe, pelo menos não até os seis ou sete anos. A partir daí, isso começa a mudar, porque passam a imitar os pais.
Então, seria necessário que os pais se acalmassem em relação a isso. Ninguém, ninguém no mundo tem tudo o que quer; ninguém consome tudo o que quer e, muitas vezes, as pessoas que têm mais dinheiro são as que mais controlam os gastos dos filhos, são as mais atentas a isso, exatamente porque se acostumaram a ter dinheiro e sabem o que pode acontecer se o perderem.
Uma vez eu fui procurada por um casal de oceanógrafos que estava muito triste. A filha de sete anos estava aborrecida porque, quando chegavam as férias, todos os colegas dela viajavam, muitas vezes para fora do país, enquanto ela ficava sempre naquela vidinha de filha de oceanógrafo, sabe como é? Sempre atrás de tartaruga, sempre na praia, sempre a mesma coisa. A menina estava ficando péssima: "Puxa vida, eu só vou a praia!"
Eu sugeri um exercício muito simples que as crianças fazem com os professores, com o tema "onde você gostaria de passar as férias". Cada aluno foi dizendo e, para grande felicidade da menina, muitos manifestaram o desejo de ir para Fernando de Noronha, para o sul da Bahia, ou de conhecer o Projeto Tamar! Era um sonho de crianças que iam para a Disney, por exemplo. Naquele momento, ela se deu conta de que tinha um bem que era cobiçado pelos outros, que somos todos iguais! (risos)
Se a gente se acalmasse um pouco mais em relação ao dinheiro, ia perceber que, muitas vezes, queremos uma coisa que o outro tem e o outro quer exatamente o que temos. De mais a mais, se a gente quer tanto uma coisa, é só uma questão de trabalhar e se organizar para conseguir. Porque invejar por invejar não leva ninguém a lugar nenhum.

Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
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