Extremidades da vida - por Rosely Sayão

O dia 1º de outubro foi dedicado ao idoso e o próximo dia 12 é a data das crianças. A proximidade das duas comemorações não foi planejada: o Dia da Criança é comemorado há quase 50 anos e lembra uma promoção de duas empresas que fabricam mercadorias para o público infantil e que criaram, dessa maneira, uma boa circunstância para o aumento de seu lucro. Aliás, é bom dizer que o índice de vendas para esse dia só é menor que o de outras duas datas exploradas comercialmente: o Natal e o Dia das Mães.
O Dia do Idoso, por sua vez, é comemorado no dia 1º há pouco tempo, e a data foi escolhida porque lembra a criação do Estatuto do Idoso. Ainda não há exploração, tampouco efeito comercial, mas creio que não demorará para que isso ocorra.
Esse fato não planejado, entretanto, nos dá a oportunidade de pensarmos a respeito das duas fases da vida que são extremidades de um percurso. O que há em comum entre elas?
Em primeiro lugar, a negação de ambas. A infância, tanto quanto a velhice, tem perdido seu lugar neste mundo. Já nascemos jovens e continuamos assim até o fim de nossa vida. É interessante perceber que adaptamos até a linguagem coloquial de modo a esconder essas condições da vida.
Em relação às crianças, passamos a nos referir a elas como "baixinhos", "pequenos" e seus correlatos, inclusive em textos jornalísticos, que usam e abusam de tais substitutos. Por certo você já ouviu a frase que afirma que a criança não é a miniatura de um adulto, não é? Mas essas palavras, que são usadas para suprimir a outra criança, apenas confirmam a tese negada na frase.
Para o velho, reservamos a palavra idoso para situações formais -avisos de atendimento preferencial, por exemplo-, mas elegemos expressões como terceira idade ou melhor idade para ocultar a velhice. Aliás, li um texto escrito por um advogado recentemente que afirmou que ser chamado de velho hoje permite até processo por reparação de dano moral. Isso quer dizer que a palavra velho transformou-se em xingamento grave, veja só!
Nossas cidades são hostis a crianças e velhos. O tempo dos semáforos privilegia jovens e carros, capazes de ter velocidade sem nenhuma dificuldade.As calçadas são irregulares, para não falar dos buracos não consertados e dos consertos mal feitos -e o corre-corre dos jovens intimida os que podem perder o equilíbrio com um pequeno esbarrão. Os espaços públicos, de um modo geral, não são ambientes acolhedores a crianças e velhos.
Aliás, os jovens de todas as idades costumam lançar olhares de julgamento a ambos quando se encontram nos mesmos locais. Achamos melhor que crianças e velhos fiquem confinados em locais próprios a eles e só entre eles: escolas, creches, bailes e clubes da "terceira idade" etc. Por que, afinal, temos de conviver com eles, que nos lembram que já fomos criança um dia e seremos velhos logo mais?
Temos orgulho de crianças que se comportam como jovens e de velhos com "espírito jovem". Deveríamos é ter empatia e respeito com nossa infância e nossa velhice, isso sim.
Por tudo isso, e por tudo aquilo que não coube neste texto dizer, poderíamos transformar as duas datas em uma, apenas: o dia dos excluídos.


Categoria: Folha Equilíbrio
Escrito por Rosely Sayão às 09h07

Comentários